Coleção de Discos de Vinil de Joaquim Paulo · Lisboa · 05.2010
Os LPs fizeram parte da minha infância e me deixaram muitas memórias. O apelo visual e tátil daqueles discos plásticos grandes e redondos sempre despertou minha curiosidade. Mas, ainda antes de eu ter idade suficiente para uma consciência musical razoável, veio a era do CD. Em casa, aconteceu tudo muito rápido: as capas quadradas, grandes e de papelão, foram trocadas por outras, pequenas e de acrílico. As prateleiras altas ganharam andares intermediários e logo foram preenchidas por centenas das frágeis caixinhas. O toca-discos (gira-discos aqui em Portugal) deu lugar a um ‘microsystem’ que de micro só tinha o nome. Devo confessar que sempre senti falta daquele cheiro dos discos (apesar de me fazerem espirrar), de vê-los girar na vitrola e de ouvir músicas com aquele ruído suave e gostoso de fundo, que me faz lembrar chuva em um dia preguiçoso, ainda que o sol brilhe lá fora. Passei a ver os vinis somente nos almoços de sábado na casa de meus avós, que mantiveram o toca-discos e a coleção na estante. Mas era só ver, porque tocar era proibido (assim como pular no sofá).
Quase 20 anos depois, o vinil voltou à minha vida - novamente através do apelo visual. Em uma primeira incursão profissional no mundo da fotografia, tive a oportunidade de fotografar algumas das capas da maior coleção portuguesa de discos de vinil, propriedade do produtor e editor radialista Joaquim Paulo. A coleção tem mais de 25 mil LPs, e o seu dono é uma enciclopédia fascinante sobre o assunto. O primeiro livro dele, Jazz Covers (2008), expõe o design de quase 700 capas de discos de jazz dos anos 40 aos anos 90. Sucesso de vendas da Taschen, foi publicado em 5 idiomas e ganhou o “Prix du livre de Jazz 2008”, atribuído na França pela Académie de Jazz. O segundo livro, também pela Taschen, segue a linha do primeiro, mas agora o tema são Funk & Soul Covers. Fui convidado a fazer as fotos da lombada e das ‘flaps’ da capa, com o tema das lombadas dos discos. O resultado chega em Setembro às livrarias.
A experiência foi adorável. Em um apartamento lindo com jeitão de casa, com uma parede inteira repleta de LPs, o sol entra manso pelas 3 janelas (mas não entra em um cantinho, onde um dos 3 gatos descansa). Ver o Joaquim Paulo e a relação íntima e carinhosa dele com cada disco daquela enorme parede me fez reviver mentalmente as sensações do vinil e ficar com vontade de comprar um toca-discos, colocar um LP pra girar, deitar no sofá e me deixar levar pra onde a música quiser que eu vá. Claro, desde que ida e volta se façam em menos de 25 minutos, pois é preciso voltar pra trocar o lado.
Posted 1 year ago Notes View Larger Image